Carta para o terceiro dia vinte seis sem você

imagem: eu mesma Andresa Costa

querido vovô,

esse é o terceiro dia dos avós sem você (que também é dia internacional da agricultura familiar), tudo parece bem estranho nesse mundo pandêmico e todos os dias entro em pânico com o “novo normal”, penso no que você diria se estivesse por aqui e soubesse o rumo que as coisas tomaram. Não sei se gostaria muito de saber que fui embora morar em outro estado, mas voltei e não fui só eu quem se foi nessa casa, embora eu acredite que você sempre soube que esse passarinho ia voar uma hora também, pois juízo de fita plástica, misturado com cola ruim de post it genérico.

Continua fazendo trocadilhos com coisas estranhas, você sabe meu senso de humor é peculiar e as piadas que só você achava graça. Não chorei de saudade hoje, mas olhei para os adesivos de visitante no hospital, colados no meu diário e senti um aperto no peito. Detesto que minhas lembranças mais vivas suas são ligadas a hospitais, uma dela foi quando te visitei pela primeira vez e fiquei tão nervosa que só consegui olhar pra ti e chorar, imagino que se recorde que hospitais não são meu forte, o trauma da infância roubada pela asma segue firme. Mas a outra foi que depois de alguns dias, internada por não consegui respirar e ter uma crise de asma por ficar ansiosa demais antes de desfilar como baliza na banda de fanfara da escola (eu me enfiava em cada uma meu deus) você lembrou como fico triste depois de ter que ir para o hospital, porque na época era parada obrigatória pelo menos uma vez por ano e me levou uma caixinha de morangos.

Isso mesmo, uma caixinha daquelas de feira só pra me fazer minimamente feliz depois de passar tantos (dias) internada, sinto falta disso… na minha rotina, a sua maneira de se fazer presente até quando estudava de domingo a domingo, mas fazia questão de me ouvir falar do meu jeitinho acelerado sobre como eu odiava isso tudo (estudar exatas) e queria largar tudo para ser escritora um dia. E se divertia com minhas peripécias de jovem adolescente descobrindo o mundo (ainda não descobri metade dele, mas espero poder um dia como nós combinamos) enfim vovô, você sabe eu falo demais e escrevo de menos (péssimo projeto de escritora), mas prometo que Fred & Júlia vai ser publicado, claro que a dedicatória vai pra você e shay que ouviram sobre minhas histórias antes delas irem para os documentos do word, espero em breve poder ocupar espaços nos kinldles e quem sabe até nas estantes alheias.

Hoje em específico acordei com muita saudade do seu abraço. Olhei para foto no porta retrato da sala em um tempo tão perto, mas também muito distante onde nós dois podíamos sentar, rir e comer churrasco nos seus aniversários no seu terraço lá no ibura.

dias que eu queria viver de novo.

com amor e muita saudade

da sua neta favorita(nós dois sabíamos que sim, mateus não fique chateado eu cheguei primeiro, sou a prima mais velha, lembre-se que sempre estou certa)

Andresa.

(e ah eu raspei o cabelo de lado rsrs, meu pai odiou, mas eu lembro que você disse ser estiloso)

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