O jovem não lê? (cultura, hábito de leitura e mais)

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“Ah, mas o jovem não lê!”

Fico irritadíssima toda vez que escuto essa frase. Passei anos achando que livros não eram para mim, pois alguns dos meus professores foram educados numa academia que os ensina o que é literatura ou não é. Isso pode ser simplesmente superado quando pararmos de ensinamos aos professores em formação que classificar livros como literários ou “não literários” baseados em conceitos arcaicos e que não permitem abertura a novas manifestações literárias. É aí que começa o distanciamento dos jovens da literatura, pois nenhuma produção literária merece ser desvalorizada.

A linguagem é plural e possui milhares de significantes que a complementam e, por isso, costumo dizer que a experiência de leitura e seu emocional é o que determina se você será um futuro leitor ou não. É óbvio que estou fazendo um recorte de privilégios bem claro aqui, pois apesar de amar educação e o foco do blog ser tornar a literatura acessível, observei muita coisa antes de sentar e escrever isto. Uma delas foi que ainda existem muitas crianças e adolescentes fora da escola e, infelizmente, este índice só cresce. O Brasil é um país subdesenvolvido nesse aspecto, mesmo sendo um celeiro de diversidade cultural, o que é uma das maiores belezas deste país.

Educação, cultura e a democratização do acesso a elas ainda não é uma prioridade. Nem o ministério da cultura existe mais, se fundiu a outro o que particularmente é um absurdo. Paguei uma cadeira de antropologia no semestre passado e descobri tantas facetas da palavra cultura que me peguei maravilhada com cada uma delas. Especialmente uma frase de um texto dado pelo professor “cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”. (Montaigne). O autor dessa frase foi um antropólogo que abriu minha mente para a cultura e também ajudou no meu discurso e debate com amigos, colegas e ouvintes de cursos de extensão.

Você provavelmente deve estar se perguntando por que comecei um texto falando de hábito de leitura e acabei entrando nesse mérito. Bom, o hábito de leitura é o grande responsável por tudo isso. Não só ele como o incentivo a tais práticas dentro e fora de sala de aula. E a realidade de alunos do ensino público é bem diferente, sim. Fiz parte dele na maior parte da minha vida. Já ocupei espaços em locais que talvez não fossem meus aos olhos de quem cresceu com mais privilégios. Já cometi erros, me equivoquei, mas essa reflexão sempre se repete em minha mente quando alguém me pergunta: “como você lê tanto?” Além de ser uma questão de prioridade eu tive o privilégio de ter uma mãe leitora e uma avó que apesar de não saber ler ainda me dá livros de presente. De todas as coisas o que mais me dói é saber que ela é uma dessas pessoas que não teve o acesso a tudo que acredito ser mais libertador para mim hoje: a educação.

E se você ainda está se perguntando por que o jovem não lê, saiba que nem todo mundo tem acesso a este privilégio que é ter uma estante no quarto, você tem e talvez outra pessoa virá a ter no futuro. Então, entenda o recorte, o privilégio e o poder que você tem e não se dá conta. Na escola pública, existem problemas maiores do que interpretar um texto e ler um poema de Cecília Meireles ou Fernando Pessoa para tentar entender todas as suas mensagens. Eu, particularmente, tenho uma nova interpretação a cada nova leitura.

Estamos sempre presos em nossas próprias bolhas sociais, o que nos faz reproduzir discursos elitistas, racistas, xenófobos, homofóbicos, misóginos, machistas, gordofóbicos e outras coisas que desrespeitam a singularidade do outro. E se o direito à educação fosse realmente garantido pelo governo hábito de leitura e literatura não seriam barreiras tão grandes.

É necessário tirar as lentes de contato de Carroll quando escreveu Alice e parar de olhar para um lugar comum esquecendo que existem outros.

Referências:

A linguagem é plural e possui milhares de significantes: aprendi isso estudando bases teóricas da comunicação. Você pode entender mais se te interessar lendo sobre semiótica ou linguística.

O que é privilégio? https://www.youtube.com/watch?v=f8vj2wWldEY

https://www.youtube.com/watch?v=NslqzrbgJjs Três pessoas diferentes (Ellora, Mônica e Murilo) com opiniões diversas com dois vídeos agregadores da sua forma.

Ministério da cultura: http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/05/temer-decide-recriar-ministerio-da-cultura-anuncio-deve-ser-na-terca.html

Livro: Cultura um conceito antropológico. Resenha: https://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2886834

Lentes de Carroll: Sempre achei a história de Alice no país das maravilhas muito viajada se você já leu o livro ou assistiu o filme vai entender. Se não é só dar um google e ler a sinopse.

Este texto foi corrigido por Amanda Costa.

22 | Estudante de Jornalismo & Booktuber http://escritoselivros.com