Sempre a mesma discussão

Imagem: Pinterest

Leia ouvindo: Sinara — Ar

Raiva.

Decepção.

Angústia.

Sempre a mesma discussão.

Andando em círculos há vinte e dois anos.

Vinte e dois.

Nenhuma autocrítica feita, mas muitas flechas apontadas, muitas, sempre na mesma direção. Dois lados, mas só um tem razão. Como pode? Se até uma faca tem dois gumes, uma relação não tem dois lados? A linha tênue entre o certo e o errado já foram cruzadas há mais de dez anos. A noção encontrou a razão e tomou seu rumo. Clarice desfez a amizade com Fernando que de Pessoa só tinha o nome, pois mundo tirou a sua escolha de ser pessoa, largou sujeito e escreveu uma oração que não lhe cabia em nada, nem nome, nem endereço tão pouco cabia o apresso.

Se não cabe na frase, quem dirá no argumento?

Fluxo ou poesia?

Livro ou diário?

Folha caderno ou um pedaço de espaço?

Lágrimas mancham o papel, a caneta borra e deixa folha manchada, a visão fica turva. Os sentimentos te engolem, o mundo te invade, invade o escritor e não o deixa ter sentimentos.

Invadido

pelo

mundo

Sem sentido, ele respira fundo. Larga o caderno. O pior pesadelo de um escritor é ser invadido pelo mundo. A escrita é uma atividade reclusa, mas que explora o mundo lá fora dentro das páginas de um documento em branco. Explorar é muito instigante, mas ser explorado pelas suas ideias e invadido por seus próprios sentimentos é visceral.

— Dói, mas não sangra. Falo para mim mesmo.

Se ninguém pode enxergar, aconteceu?

Fecho o caderno e sento.

22 | Estudante de Jornalismo & Booktuber http://escritoselivros.com